[HISTÓRIA] Como foi a verdadeira Trégua de Natal de 1914, durante a 1ª Guerra Mundial?

Em “Twice Upon a Time“, assistimos a um final feliz para a família Lethbridge-Stewart: o milagroso armistício durante uma batalha da Primeira Guerra Mundial, em Ypres, 1914.

A “Trégua de Natal” ou “Armistício de Natal” (como ficou conhecido o evento histórico) de fato aconteceu na vida real, mas não foi tão simples e bonita como vimos no episódio.

Registros históricos daquele dia de sol

No Natal de 1914, os exércitos britânicos, franceses e belgas já estavam lutando contra as forças alemãs no fronte oeste por cinco meses (ou seja, desde agosto). Em setembro, ambos os lados já haviam cavado trincheiras de defesa, protegidas por artilharia, arames farpados e armas de tiro, desde o Mar do Norte até as fronteiras da Suíça.

Era só o começo de um impasse mortal que continuaria ainda por mais quatro anos.

No entanto, de acordo com o historiador Tony Ashworth, as relações entre os britânicos e os alemães eram mais amigáveis do que parece à primeira vista. Há vários registros de soldados inimigos trocando notícias (a maioria sobre futebol), gritando uns aos outros por sobre as trincheiras. Em alguns casos, exércitos opostos até cantavam juntos de vez em quando.

Tal cantoria irrompeu na véspera de Natal, com vários soldados de partes diferentes das trincheiras inimigas cantando músicas de Natal juntos (inclusive “Noite Feliz”, conforme mostrado no episódio de Doctor Who).

Não se sabe exatamente onde a trégua começou naquela ensolarado Natal um século atrás, como o cessar-fogo não-oficial começou, nem se essas ocasiões de “viva e deixe viver” foram planejadas dias antes. Porém, nós realmente sabemos que, em várias partes, soldados de ambos os lados saíram de suas trincheiras, conversaram e riram uns com os outros, trocando presentes como comida, cigarros e chapéus.

Recriação do armistício em homenagem ao centenário da Trégua de Natal. Foto: Philippe Huguen

 

Um registro do dia menciona um soldado britânico tendo seu cabelo cortado por um barbeiro alemão. Em outro, soldados desfrutando de um porco assado entre as duas trincheiras inimigas.

Os soldados realmente jogaram futebol?

Sim. Embora os historiadores aleguem que a maior parte do futebol tenha acontecido entre soldados da mesma nacionalidade, os pesquisadores Malcolm Brown e Shirley Seatonare conseguiram compilar registros da trégua em que britânicos e alemães jogaram partidas juntos.

Desenho de Gilbert Holliday, baseado na descrição de um atirador que testemunhou uma das partidas

Isso inclui um curiosa história do tenente alemão Johannes Niemann, que escreveu que seus colegas soldados jogaram escoceses de kilt (aquela saia típica da Escócia) por cima da lama congelada. Infelizmente, o registro também conta que o placar final foi de 3 a 2 para os alemães.

Em outras partes da trégua, os escoceses de Argyll e Sutherland venceram os alemães por 4 a 1, enquanto a Artilharia de Campo Real fazia desenhos com seus oponentes e os fuzileiros de Lancashire venceram por 3 a 2 em seu jogo improvisado de bola e latas de ração.

Todos participaram da trégua?

Infelizmente, não. Em algumas partes das trincheiras, a luta continuou, e oficiais chegaram a atirar contra seus próprios homens que tentavam confraternizar com os inimigos.

Muitos soldados também se opuseram à trégua, incluindo um jovem chamado Adolf Hitler

Quanto tempo durou o armistício?

Em muitas áreas, o armistício durou apenas um dia, mas muitos setores aproveitaram a calmaria entre o Natal e o Ano Novo em paz.

Foto de tropas alemãs e inglesas juntas durante uma partida na véspera de Ano Novo

 

Alguns soldados que curtiram uma partida de bola no Natal também repetiram as partidas amistosas no Ano Novo.

O cessar-fogo foi repetido no ano seguinte?

Registros de tréguas em 1915 são difíceis de serem encontrados, talvez porque o Alto Comando de ambos os lados da guerra ficaram furiosos com os eventos do ano anterior, ameaçando de levar às cortes marciais os soldados que parassem as lutas novamente.

Entretanto, algumas partidas de futebol ainda assim aconteceram no Natal de 1915. O registro mais notável é o do voluntário britânico Bertie Felstad, que contou ter havido uma partida de futebol de 50 contra 50 soldados na área do meio entre as trincheiras. Foi um jogo que durou menos de meia hora, antes que um sargento-major britânico ordenasse a seus homens que voltassem imediatamente para as trincheiras.

O armistício de Natal já apareceu antes em Doctor Who?

Não na série de TV, mas sim na história em quadrinhos “The Forgotten”, em que o 9º Doutor visita as trincheiras durante a Trégua de Natal com sua companion Rose Tyler, chegando a apitar uma partida entre soldados ingleses e alemães.

Como foi filmar a trégua para um especial de Natal de Doctor Who?

Emotivo. Após uma pré-estreia do especial mais cedo em dezembro deste ano, o ator David Bradley (que reinterpretou o 1º Doutor) contou ao público que ele, assim como o ator Peter Capaldi (12º Doutor) tiveram que segurar as lágrimas no estúdio de filmagem:

“Peter e eu estávamos presos naquele lamaçal, quando de repente todos aqueles caras saíram de suas trincheiras e ficaram ao nosso redor. Nós chegamos muito perto de choramingar e arruinar a filmagem da cena.”

O ator Mark Gatiss, que interpretou o Capitão (avô do Brigadeiro Lethbridge-Stewart, na série clássica, e bisavô de Kate Stewart, na série moderna), também considerou poderosa essa cena:

“Todos esses soldados emergiram de suas trincheiras e começaram a cantar. Nós todos começamos a chorar. Foi fantástico”.

Fonte: Radio Times

Não sou Colônia Sarff, mas vivo caçando notícias sobre Doctor Who, com ajuda do Circuito de Tradução da TARDIS. Jornalista cultural, escritor catarinense, roteirista de série e whovian de alma. Para ler todas minhas postagens, clique aqui.

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Este post tem 5 comentários

  1. Malditos ninjas cortadores de cebolas…

  2. Cena lindíssima! Uma das mais emocionantes no episódio, com certeza.

  3. Para uma melhor compreensão da Primeira Grande Guerra e do cenário inteiro da trégua de 1914 recomendo a leitura do incrível livro: A Sagração da Primavera, de Modris Ekstein.

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