Russell T Davies sobre escrever o final de Doctor Who: “Adeus, Whoniverse. Nossa, como foi divertido!”

Em um trecho de suas novas memórias, o roteirista se despede da série que ajudou a salvar – e critica os constantes vazamentos online que tornaram a escrita tão difícil.

Billie Piper surpreendeu a todos nós. Sabíamos que Ncuti Gatwa estava de saída, então eu havia escrito o clímax em que o Doutor, depois de salvar a vida de um bebê em The Church on Ruby Road, o primeiro episódio de Ncuti, agora se despede salvando a vida de um bebê porque o universo está em risco. Mas tivemos que produzir esses episódios finais sem saber se o contrato com a Disney seria renovado. Isso não tinha nada a ver conosco, da [produtora independente] Bad Wolf; dependia das negociações entre a Disney e a BBC. Portanto, não tínhamos ideia do que estava acontecendo. No fundo, eu achava que não seria renovado. Dava para perceber o que eu estava pensando, porque eu já estava criando novos trabalhos: “Tip Toe” para o Channel 4 e também montando a versão de dança de “It’s a Sin” com a Rambert. Na verdade, de certa forma, teria sido um pesadelo para mim se aquela terceira temporada tivesse acontecido, mas eu teria dado um jeito.

Como a terceira temporada estava em aberto, o final foi planejado para culminar com uma regeneração em aberto. Então, filmamos isso com o Ncuti: ele sorriu e disse sua última fala, e a tela se transformou em um brilho dourado… Só que, quando montamos tudo, parecia o fim da série. Dissemos: “Pensem nas crianças assistindo a isso. É como uma morte. Não podemos fazer isso com elas.”

Quando chegamos à fase de edição, já estava praticamente confirmado que a Disney havia recusado. Então, infelizmente, tivemos que esperar meses, pois a BBC estava em uma situação difícil. A BBC sempre demora a agir em uma crise, justamente por ser uma instituição tão grande. E, ao mesmo tempo, as pessoas estavam deixando a BBC, como [a diretora de conteúdo] Charlotte Moore, que sempre fora uma das maiores defensoras de Doctor Who. Mas agora ela tinha ido embora. E a BBC nunca sabe como dar más notícias. Para ser justo, quem sabe, afinal? Além disso, a BBC tem grandes magnatas da imprensa e a mídia de direita sempre prontos para atacar cada decisão que ela toma, então não é de se admirar que esteja nervosa. Como resultado, houve um atraso de meses em que nenhum de nós podia dizer nada nem fazer nada, porque eles queriam ter todos os elementos certos no lugar para explicar como e por que essa série havia fracassado.

Estávamos num limbo, sem nenhuma ação por meses. Então decidimos que o Doutor deveria se regenerar em… Billie Piper!

Ao mesmo tempo, havia o lançamento e a exibição da segunda temporada. Então dá para entender por que houve um atraso. Não podíamos lançar uma nova leva de episódios dizendo: “Ah, a propósito, esse acordo está desmoronando”. Eu entendi isso perfeitamente.

Ficamos presos no limbo, com muitos meses de inatividade, enquanto eu ficava ali assistindo a um final que parecia final demais. Então, convoquei uma reunião no Zoom com todos os nossos executivos e disse: “Não podemos exibir isso” Precisamos de alguém para assumir o papel. Precisamos de alguém que esteja lá. Alguém em quem ele possa se regenerar fisicamente diante dos nossos olhos. Decidimos que o Doutor deveria se regenerar em… Billie Piper!

Entramos em contato com ela e ela ficou muito animada em aceitar, porque adora Doctor Who e adora a equipe. Todos nós continuamos sendo grandes amigos ao longo dos anos, e a Bad Wolf produziu a série I Hate Suzie, estrelada por Billie. Ela nos deu o “sim” mais rápido que poderíamos ter recebido.

E funcionou, porque todo mundo voltou a prestar atenção ao programa. Nem consigo imaginar quantas pessoas — nas ruas, estudantes aqui em Manchester, membros da minha própria família — estavam falando sobre isso. Dois dias após a exibição, fui à festa de despedida de Charlotte Moore em Londres. O que há de melhor e mais renomado da televisão estava lá, e eu não conseguia acreditar na quantidade de pessoas que me perguntaram sobre a Billie. Profissionais de televisão de respeito e experientes, que eu nunca teria imaginado que assistissem a Doctor Who, todos dizendo: “Billie, Billie, Billie!”

Eu tinha uma história para o especial. Uma vila inglesa à moda antiga intercalada com uma enorme e misteriosa nave espacial, um festival no espaço e muitos, muitos Daleks… Ah, sim, eu gostei!

Só havia um problema.

Como eu disse, ninguém gosta de dar más notícias. Então, quando chegou a hora de anunciar o fim do contrato com a Disney, a BBC fez questão de anunciar também a existência de um especial de Natal para 2026, para confirmar seu compromisso com a série. Bem, eu já tinha minhas dúvidas desde o início – um especial de Natal sobre o quê, para quem, de onde viria o dinheiro? – mas, pela primeira vez na vida, permiti que meu nome fosse usado em um comunicado de imprensa que me deixou um pouco desconfortável. Isso me ensinou uma lição!

Mas eu tinha uma história. Apresentei-a à BBC e eles adoraram. Uma vila inglesa tradicional intercalada com uma enorme e misteriosa nave espacial, um festival espacial chamado Winternox e muitos, muitos Daleks, com algo muito inesperado escondido… Ah, sim, eu gostei!

Então tudo desacelerou. Convenhamos, quando uma série não está em produção, ela cai na lista de prioridades de todos. A produção prospera com energia, e é perigoso quando ela se dissipa. Eu nem sequer consegui um contrato para escrever o Especial de Natal até o final de março de 2026, depois de ter sido anunciado em outubro de 2025.

E então fiquei muito ocupado com Tip Toe, mais ocupado do que eu esperava, porque o Channel 4 queria transmiti-lo o mais rápido possível; era muito atual e tinha diálogos sobre Keir Starmer e Kemi Badenoch que corriam o risco de ficar desatualizados se não nos apressássemos. E então Billie ficou ocupada com aquela série incrível da Netflix, Wednesday, então o tempo continuou passando. Chegamos a cogitar se poderia se tornar um Especial de Páscoa para 2027. Por um tempo, fiquei obcecado com a ideia de uma história de Natal sendo transmitida na Páscoa, porque, como parte do enredo, o tempo estava fora de ordem. O/A Doutor/a correndo por aí gritando: “Não é Natal de verdade!” Um pouco metalinguístico, mas divertido.

Mas então pensei: preste atenção no que você mesmo está dizendo. O que você está falando? Um especial de Natal na Páscoa, que depois leva a… o quê? Exatamente ao mesmo tempo, os planos aceleraram na BBC. As maiores mudanças na TV acontecem quando os chefes mudam, e agora aconteceu de novo. As coisas tinham desacelerado quando Charlotte Moore saiu, mas aí a nova chefe, Kate Phillips, abraçou Doctor Who com energia e vigor. O que eu realmente apreciei, porque quando você está no cargo mais alto da BBC, você tem que lidar com Trump, Netanyahu, a Reforma e um milhão de problemas todos os dias, então é difícil colocar uma série de ficção científica antiga no topo da sua lista. Mas Kate colocou! O que me dá enorme confiança no futuro da série. Mas, ao mesmo tempo, isso nos afetou.

A BBC sempre falou sobre abrir uma licitação para Doctor Who um dia, porque isso cumpre a Royal Charter and Agreement que exigem que todo o conteúdo televisivo participe de uma competição de mercado aberto. Sempre presumimos que a licitação pudesse surgir em algum momento no futuro, talvez em 2028 ou 2029. Mas, de repente, decidiram iniciar o processo em 2027. Ótimo! Excelente!

Quando se trata de ficção científica, o problema dos vazamentos na internet é hoje tão vasto e prejudicial que ameaça arruinar tudo.

Só que isso deixa uma dúvida. O que é esse Especial de Natal? Temos uma era enorme atrás de nós, temos uma era enorme à nossa frente, e o que é essa coisa no meio? Um único episódio que não é nem uma coisa nem outra, nem isso nem aquilo. Ele realmente existiu para agradar aos fãs, só que a ironia é que foi exatamente o tipo de episódio que os fãs não iriam gostar. Além disso, a licitação acabou se tornando um bom ponto de saída para mim e para a Bad Wolf. Vamos ser sinceros: nós não íamos voltar pela terceira vez! Além disso, pensei baixinho comigo mesmo: vou passar um ano trabalhando nisso, mas tudo vai vazar antes mesmo de ir ao ar.

Permitam-me um pequeno parêntese aqui. Quando se trata de ficção científica, o problema dos vazamentos na internet é hoje tão vasto e tão prejudicial que ameaça arruinar tudo. E está mais intenso do que nunca no caso de Doctor Who. Cada decisão que já tomamos, cada reviravolta na trama, cada momento, até mesmo a aparição de Billie nos últimos segundos do episódio final da última temporada, foi vazado. É absolutamente extraordinário, e juro que isso contribuiu muito para destruir a reputação da série. Isso gera um cinismo entre os fãs, porque eles não se surpreendem mais com nada. A reação deles a um vazamento é de desânimo, uma suposição instantânea de que o que quer que tenha vazado não vai funcionar. Eles imediatamente imaginam a pior versão possível e, então, quando finalmente assistem, isso inevitavelmente confirma o preconceito deles. Então, tivemos que trabalhar por dois anos sabendo que os vazamentos estavam acontecendo e, mesmo assim, ficamos impotentes.

A BBC conseguiu localizar a pessoa que estava divulgando as informações na internet, mas tratava-se de um cidadão comum. Provavelmente, essa pessoa era amiga de alguém em algum ponto da cadeia de distribuição de Doctor Who, e nós simplesmente não tínhamos o direito legal de apreender os e-mails dessa pessoa. Gostaria que tivéssemos. Esse era meu material protegido por direitos autorais – por que não tenho o direito legal de fazer com que essa pessoa seja presa? Mas a BBC sempre teve muito receio de como isso seria visto – um cidadão comum sendo processado simplesmente por violar direitos autorais; seria como esmagar uma borboleta com uma roda.

O programa ganhou liberdade. O futuro pode ser planejado por uma equipe totalmente nova. Limpa, ousada e brilhante.

Até hoje, não sabemos quem foi o responsável pelo vazamento, o que nos fez suspeitar de todas as pessoas com quem trabalhávamos. Houve algumas conversas delicadas no trabalho. Mas, em algum momento do processo, todos esses episódios passam por centenas de etapas técnicas em centenas de plataformas diferentes, e tenho quase certeza de que foi apenas alguma pessoa aleatória sentada no fundo de uma sala — não o chefe, mas alguém cujo trabalho é simplesmente apertar o play em tudo o que já fizemos — que contou para um amigo, que por sua vez postou na internet. Essa pessoa ainda está por aí. Talvez ela esteja lendo isso e espumando de alegria. Muito bem, amigo, aproveite sua masturbação. Mas ficamos impotentes, absolutamente impotentes, para fazer qualquer coisa. Acho que esse pequeno segmento de fãs de ficção científica está, na verdade, começando a afetar todo o gênero, especialmente agora que o ódio pode ser monetizado no YouTube. Doctor Who, Star Trek, Star Wars — todos estão sendo derrubados pelo desprezo. Dá até para ver isso acontecendo fora da ficção científica, onde qualquer segunda temporada está em guerra furiosa na internet com os fãs da primeira. Veja o que está acontecendo com The Pitt.

Felizmente, o desprezo é, em essência, pouco criativo. Essas pessoas vão perder o fôlego. E veja há quanto tempo venho tendo ideias; estou bem à frente. Enfim. Fui à BBC em 6 de maio de 2026 e disse: “Não acho que devêssemos estar produzindo isso.” E não disse a parte seguinte em voz alta, mas pensei do fundo do coração: a BBC está com problemas financeiros; está demitindo milhares de funcionários na redação, então será que deveria mesmo gastar milhões, sem verba de coprodução, em um episódio único de Doctor Who que logo será ofuscado por uma era totalmente nova? “Coloquem sua energia e imaginação no futuro”, eu disse. E, para ser sincero, acho que eles estavam esperando que eu dissesse isso. Todos nós tínhamos sido educados demais uns com os outros: eles não queriam me decepcionar, e eu não queria decepcioná-los. Mas esse novo plano liberta a série. O futuro pode ser planejado por uma equipe totalmente nova. Limpa, ousada e brilhante.

Sim, isso nos deixa com um quebra-cabeça sobre a Billie, mas, vamos lá, isso é fácil. Os problemas de Doctor Who são simples de resolver (lembre-se: em 1996, foi proclamado que o Doutor é meio humano — isso foi resolvido porque todos, discretamente, nunca mais mencionaram o assunto). Uma nova equipe de produção pode abraçar essa aparição com alegria ou – e isso é mais provável – explicar o acontecimento com exatamente sete palavras. Sem sofrimento. Isso não é um problema, é moleza.

Então, essa é a minha despedida. Adeus, Whoniverso. Nossa, como foi divertido! Eu não teria perdido nem um segundo disso. Que série incrível.

Este é um trecho editado de The Queerest of Folk: A Life in Television, de Russell T Davies, publicado em 8 de outubro pela Transworld ao preço de £25.

Texto de – Sat 3 Oct 2026 11.59 BST | Traduzido por Jéssica Laíse em 04 de outubro de 2026

Imagem de capa: Russell T Davies, photographed last month. Photograph: Harry Borden/The Guardian

Traduzido de: ‘Goodbye Whoniverse. God, that was fun!’: Russell T Davies on writing the end of Doctor Who

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