REVIEW 12×04 – Nikola Tesla’s Night of Terror

Após o gosto amargo de Orphan55, “Nikola Tesla’s Night of Terror” é aquele doce de que a gente estava precisando, e vamos saber o porquê neste review do episódio 12×04 de Doctor Who!

Sempre falamos, mas não custa relembrar: Spoilers ahead!

Vamos falar sobre:

  • Personagens históricas;
  • Nikola Tesla;
  • Thomas Edison;
  • A “rainha” Rani Skithra;
  • “Você já viu um planeta deserto?”
  • A Doutora e a Wardenclyffe;

Liberte o gênio que há em você e bora acompanharmos mais essa análise do Universo Who!

 

 

Personagens históricas

Este episódio entra para o hall da fama dos episódios com personagens históricas em Doctor Who, ganhando destaque quase tanto quanto “The Unquiet Dead”, “Vincent and The Doctor” e “Rosa”, por exemplo.

Ao contrário de “Spyfall (Parte 2)”, em que tínhamos duas personagens históricas (Ada Lovelace e Noor Inayat Khan) atuando de forma indireta no enredo, dessa vez temos a trama inteira focada nele: Nikola Tesla.

Obviamente, temos também o inventor Thomas Edison, igualmente personagem histórico. Porém, é na figura de Tesla que a história centraliza seus principais dramas.

Se compararmos com o episódio anterior, “Orphan 55”, veremos lá um excesso de subtramas mal desenvolvidas com um final que não deu conta da carga dramática proposta. No entanto, em “Nikola Tesla’s Night of Terror”, temos todas as subtramas diretamente ligadas a Tesla:

Temos subtrama focada na personalidade melancólica dele; outra para sua mentalidade inventiva; outra para sua rivalidade com Thomas Edison; outra para sua popular figura socialmente mal vista; outra para seu fatídico destino sem reconhecimento em vida; outra para relacionar e aprofundar o desenvolvimento dramático da Doutora; dentre outras.

E o melhor: essas subtramas não tiveram uma delinearidade explícita, de modo que a gente transitou entre elas muitas vezes sem perceber, já que todas têm como núcleo a mesma pessoa de Nikola Tesla, com todos os seus lados e contra-lados.

Sendo então uma personagem com tantas dimensões bem harmonizadas, temos em Nikola Tesla uma personalidade íntegra no episódio, com um potencial de exploração imenso e que, graças à interpretação do talentoso ator Goran Višnjić, foi possível. Curiosidade: tanto o ator quanto sua personagem são extrangeiros naturalizados norte-americanos.

Na minha opinião, o “Nikola Tesla de Doctor Who” conseguiu se equiparar, em termos de construção de personagem, ao “Vincent Van Gogh de Doctor Who” – o qual, até então, para mim figurava no topo das melhores personagens históricas na série.

Coloquei esses nomes entre aspas no parágrafo anterior porque sabemos que há uma diferença entre as personagens da série e suas reais personas históricas. Doctor Who não é um documentário e não deve ser considerado como “fonte” para considerar os verdadeiros Tesla, Vincent e tantos outros. Vale lembrar que são todos eles personagens de contos, releituras que são conduzidas segundo a vontade de quem conta. Portanto, me tornei fã do “Tesla de Doctor Who”… já sobre o “verdadeiro Tesla” da vida real, devemos estudar muitas outras fontes ainda.

E isso é o legal em Doctor Who, a série nos inspira a ir atrás de conhecer mais sobre essas personagens, sobre a nossa própria história e pelas diferentes versões que existem dela por aí, partindo até mesmo da brincadeira de imaginar invasões alienígenas fazendo parte dessa grande aventura humana sobre a Terra.

 

Nikola Tesla

Excêntrico, Nikola Tesla foi considerado, por muitos, como um gênio e, por muitos mais, como um louco. O que sua época falhou em reconhecer, a história recente tratou de reparar. Hoje, o nome “Tesla” é mais conhecido do que o próprio inventor.

Representada pela letra T, “tesla” é uma unidade internacional de medida de densidade de fluxo magnético. Tesla também é hoje o nome da famosa empresa de carros elétricos, comandada pelo visionário Elon Musk. No entanto, para nós, whovians, Tesla ganha um novo significado: lição de integridade.

Temos em Tesla a figura do gênio incompreendido, um humano inteligentíssimo capaz de idealizar o futuro com base em uma visão científica do potencial da natureza. Ondas de rádio, Wi-Fi e controle remoto são apenas uma das tecnologias que temos hoje, tão essenciais, que só foram possíveis graças ao trabalho daquele homem.

Porém, mais do que um inventor a ser importante na história da humanidade, Tesla era um “simples Nikola”, um homem com medos, sonhos, expectativas e frustrações, como qualquer outro ser humano em qualquer época. O que fazia dele alguém diferente? Para responder a essa pergunta, precisamos da intervenção de uma Senhora do Tempo intrometida e necessária.

Em “Nikola Tesla’s Night of Terror”, temos a Doutora e uma ameaça alienígena provocando na audiência a resposta para a profundidade de um homem comum do século passado. O que estava em jogo neste episódio não era uma ameaça contra a humanidade, contra a Terra ou contra “o futuro”, mas sim uma jornada aos princípios da verdadeira integridade humana.

 

Thomas Edison

Para contrapor esses valores, temos a figura caricata de Thomas Edison, como alguém motivado pelo capital, ou seja, focado mais em fazer fama e dinheiro a partir da terceirização da genialidade de outras pessoas do que necessariamente sendo ele a mente brilhante por trás das invenções.

Com um quê de “personalidade norte-americana” (estereótipo do capitalista desalmado), Edison nos lembrou alguns outros similares personagens em Doctor Who.

Mais recentemente, tivemos o empresário de hotelaria e pré-candidato à presidência dos Estados Unidos, Jack Robertson (Chris Noth), na 11ª temporada, também num episódio 4, “Arachnids in the UK”. Ambos têm essa visão similar de que o “jeito norteamericano” de conseguir as coisas são justificáveis, inclusive ambos demonstrando o apreço por armas como um desses meios.

Thomas, em vários momentos, nos induz a entender que muito de sua personalidade é cultural, quando contrapõe o jeito “norteamericano” de fazer negócios (e humor) com o jeito “britânico”.

Historicamente, Thomas não era apenas um empresário, ele também era um grande inventor. Dentre suas contribuições, estão a lâmpada de luz incandescente, as câmeras de filmagem e os gravadores de áudio (essenciais para o desenvolvimento do Cinema). Se não fosse por ele, talvez hoje não tivéssemos Doctor Who para assistir.

“Nikola Tesla’s Night of Terror” conclui com a idea de um Thomas Edison “produto” de sua época e de seu país. Alguém não necessariamente mau, mas com métodos não tão honrosos quanto os de Tesla. A ideia era comparar, constantemente, que era mais importante ter suas próprias ideias e realizações do que erguer-se na vida usando as ideias dos outros como degraus.

Foi lindo e inteligente o último diálogo entre Tesla e Thomas, quando este o oferece emprego e aquele recusa dizendo:

“Talvez… mas como eu poderia ‘parar’ agora?”

Ou seja, se Tesla não fosse mais autêntico com seu próprio jeito de fazer o futuro acontecer, isso seria o mesmo que parar de vez.

 

Rainha Skithra

E semelhantemente a Thomas Edison, tivemos a rainha Skithra (Anjli Mohindra) no papel de alguém não-humano com a mesma personalidade “ladra” de invenções. Uma das funções de Skithra na trama era mostrar o tipo de “monstro” que há por dentro de alguém como Thomas Edison, a essência daquele tipo de atitude.

Essa essência se revela na própria aparência e personalidade dela: sinistra, cínica, repugnante… agindo de forma oculta, roubando a identidade dos outros, não sendo autêntica em si ou com a própria espécie. Até mesmo a aparência de escorpiões reflete essa característica peçonhenta, que se rasteja pelos cantos e que pode ferir mortalmente.

Inclusive, Skithra chega a matar um de sua própria espécie repentinamente (e por mero ego). Isso mostra que o “chefe” pode, a qualquer momento, aniquilar um de seus ajudantes, sem mais nem menos. A relação de Skithra para com seu ciclone (coletivo de escorpiões) é a mesma de Thomas para com seus inventores subalternos: a qualquer instante, Thomas poderia encerrar a carreira de qualquer um e assumir a glória de seus inventos e ideias (o que, de fato, aconteceu algumas vezes na história factual).

Entretanto, o papel de Skithra vai além. Ela também serve para atiçar a Doutora, no que aparentemente está sendo o início de um processo de despertar da ira dessa Senhora do Tempo.

 

Uma Doutora irada

Quando comparamos o discurso da Doutora, recém-regenerada, para Tim Shaw, no final do episódio 1, “The Woman Who Fell to Earth”, da 11ª temporada, com o discurso que a mesma Doutora dá para Skithra neste episódio, vemos diferenças drásticas. A Doutora agora está mas fria, com palavras mais duras, sem “segundas chances” (similar ao 10º Doutor recém-regenerado em “The Christmas Invasion”).

Skithra também provoca a Doutora ao mencionar, de forma infeliz, um “planeta deserto”. A trilha sonora naquele instante nos remete à Gallifrey destruída, que a Doutora testemunhou no episódio 12×02, ou até mesmo ao planeta “Desolation” (episódio 11×02, “The Ghost Monument”), mas também sabemos que ela havia acabado de retornar de uma Terra futurística também desolada, em “Orphan 55”.

Isso nos indica a possibilidade de que, assim como o futuro da Terra estava em fluxo e poderia nunca vir a acontecer, talvez o mesmo possa acontecer a Gallifrey, e eventos interfiram a ponto de o planeta-natal da Doutora nunca ser destruído como vimos. Teoria apenas…

O importante é que a Doutora ficou movida com a provocação de Skithra, e a reação dela na hora foi de ira. A ira de um Senhor do Tempo insano como o Doutor pode ser tão perigosa quanto a de um ser humano com medo (ou mais). Naquele momento, para o bem geral, a Doutora consegue condicionar aquela ira para teletransportar uma ignorante “rainha da sucata” para fora daquele ambiente e, assim, dar continuidade ao plano com a Torre de Tesla.

 

A Wardenclyffe Tower

Também conhecida como Torre de Tesla, a torre Wardenclyffe foi um dos poucos trabalhos de Nikola que se mantiveram inacabados quando ele faleceu, em 1943 (40 anos após os eventos deste episódio). O objetivo da torre era trasmitir energia de um ponto a outro (muito distantes) sem precisar de cabeamento. Era o início das transmissões de rádio e telefonia.

Em Doctor Who, a Wardenclyffe tem seu apogeu ao ser a ferramenta que expulsa o ciclone de Skithra para fora da Terra. A Doutora consegue colocar toda a teoria de Tesla em prática por um breve momento, reacendendo a esperança do jovem inventor. No entanto, ao contrário das expectativas da companion Yasmin “Yaz” Khan (Mandip Gill), esses eventos não foram o suficiente para salvar o projeto Wardenclyffe, fazendo com que todo o fluxo da história continuasse seguindo sem intereferências.

Tristemente, o setor financeiro não era o forte de Tesla, e o projeto ficou engavetado por falta de investimento. Em 1902, Tesla começou a transportar seu laboratório para as instalações da Torre. Os eventos com a Doutora ocorreram em 1903. Entre 1902 e 1906, acabam-se as esperanças para a Wardenclyffe. Em 1911, a Torre de Tesla começa a se deteriorar.

Sem dinheiro para continuar seus trabalhos e sofrendo pressão da imprensa e dos investidores iniciais do projeto, Nikola Tesla, esse gênio que falava oito idiomas, desenvolveu uma forte depressão. Morreu aos 86 anos, vítima de complicações de um infarto do miocárdio.

 

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Tem muito mais por vir! Cyberman, Daleks, o Mestre e Gallifrey!

Até a próxima! Allons-y!

 

Texto: Djonatha Geremias (Universo Who)

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