REVIEW: 11×02 – The Ghost Monument

Referências à série clássica e moderna não faltaram no 2º episódio da 11ª temporada de Doctor Who, que veio para reforçar o quão “Doctor” a nova Doutora é, e é disso que vamos falar neste review de “The Ghost Monument”.

The Ghost Monument

Uma avaliação tardia, mas diferente

Escrever um review de um episódio inédito de Doctor Who é algo que precisa de, primeiro, digestão.

Muitos reviews são escritos em poucos minutos ou horas logo após a estreia do episódio. Por isso, é comum que muito do que foi dito pelos rapidinhos seja igual ao que todo mundo já tenha pensado.

No entanto, depois que a maioria das vozes já falou todas as principais impressões e opiniões sobre as novidades mais chamativas, é que a gente consegue esfriar a cabeça e tentar oferecer algo diferente.

Na semana passada, Vinícius Viana trouxe o review de “The Woman Who Fell To Earth”, e agora é minha vez, Djonatha Geremias, de analisar “The Ghost Monument” – e a propósito, é o primeiro review que escrevo para o Universo Who.

Muitas pessoas amaram o episódio, outras nem tanto, e algumas definitivamente não viram nada demais. Para mim, este episódio é ouro, muito rico em informações e cheio de novidades e referências.

Neste review, eu abordo:

  • Nova abertura: sensação de parecer “mais curta”
  • Direção de Fotografia
  • Referências à 10ª temporada
  • Sequência de adrenalina sem cortes por 70 segundos
  • Sintonia entre Jodie Whittaker e o ator de Epzo
  • Inovação nos efeitos visuais
  • Análise dos “vilões” e a Mitologia das novas raças
  • Consistências e Inconsistências do roteiro
  • Dramas de vida das personagens
  • Atuação de Jodie e personalidade da Doutora
  • Personalidade da nova TARDIS
  • O porquê de a Doutora não ter querido saber mais sobre a Criança Atemporal (Timeless Child)

Espero que você goste.

 

Nova abertura parece ser “mais curta”

Apesar de ser o mesmo “meio minuto” de introdução que tínhamos desde 2005 (variando de 35 a 40 segundos), a sensação que ficou é que a nova abertura está agora “mais curta” (35 segundos).

Vejamos o porquê:

Se você acompanhou as 10 dicas sobre o novo episódio com antecedência aqui no site, viu que a primeira dica era que não haveria teaser.

De fato, o episódio já começou com a nova animação de abertura (open titles), sem as cenas de introdução à aventura. Parece estranho, mas foi o mesmo aconteceu na estreia de “Rose”, na 1ª temporada da era moderna, lembra?

Ainda assim, isso pegou parte da audiência de surpresa. Quem é fã da era clássica já está bem acostumado aos episódios começarem direto com a abertura, e agora este formato “clássico” parece retornar à era moderna.

Só precisamos esperar para ver se esta antecipação continuará se repetindo a partir dos próximos episódios ou se voltaremos a ter cenas teaser novamente.

Junto a esse supetão, veio também a corrida para tentar absorver o máximo possível de detalhes sobre a abertura enquanto ela se revelava aos nossos olhos pela primeira vez.

E o que chamou a atenção logo de cara, além da cor roxa predominante ao invés do vermelho e amarelo (como é a identidade visual da nova logo), foi como a música e a animação “espelhada” referenciam as primeiras aberturas clássicas de Doctor Who.

O vórtex temporal, naquele estilo “tubinho” a que estávamos acostumados, aparece muito brevemente no final da abertura – e sem TARDIS indo para lá ou para cá.

Resultado disso: quando achávamos que a abertura “ia começar”, ela acaba! Você sentiu isso?

O importante, pelo menos, é que ainda é possível cantarmos juntos o “doo-wee-doo“.

 

Fotografia já chega chegando

Como se o episódio de estreia da 11ª temporada já não tivesse sido suficiente para encher nossos olhos, graças ao diretor de Fotografia Denis Crossan, agora foi a vez de Tico Poulakakis continuar a direção fotográfica otimamente:

A cena inicial, do universo nos olhos do companion Ryan (Tosin Cole), nos remete a dois momentos importantes da 10ª temporada, ainda com o 12º Doutor (Peter Capaldi).

1) Ver estrelas ao morrer

A primeira referência vem do episódio final de temporada “The Doctor Falls“, quando o Doutor está prestes a morrer. Ele fala que gostaria de que as estrelas fossem a última coisa que ele vislumbrasse antes de morrer.

E de repente temos o recém iniciado companion Ryan diante da morte vendo o quê?

Estrelas…

Pode ter sido intencional ou não a referência, mas assim como a física e a poesia, Doctor Who também sabe rimar episódios.

2) Morto pelo espaço

A segunda referência vem do episódio “Oxygen“, quando vemos a companion Bill Potts (Pearl Mackie) e o Doutor ficando expostos ao espaço sem proteção no rosto.

Os olhos deles começam a sentir as consequências do frio e do vácuo espacial, mas é o Doutor quem acaba perdendo a visão completamente.

Não teve engenhoca na TARDIS nem de Gallifrey, que conseguisse curar a vista do nosso Time Lord, mas aparentemente alguma civilização já tinha a tecnologia necessária para resolver o problema rapidamente.

Foi assim que Ryan teve seus olhos curados em um considerável curto tempo, quando vemos difusos momentos em que uma máquina futurística agia na saúde do companion.

Se o 12º Doutor tivesse conhecimento desse aparato antes, provavelmente os Monges (em “The Pyramid at the End of the World“) não teriam tido a mínima chance de conquistar a Terra.

 

70 segundos de adrenalina sem cortes

Por falar em direção competente, temos o diretor Mark Tonderai dando um show de cinematografia a bordo da nave Cerebos.

Do momento em que Yasmin Khan (Mandip Gill) acorda no pod até o momento em que ela se dá conta de que está em uma espaçonave, passam-se 1 minuto e 10 segundos de filmagem… sem cortes.

Relembre (em inglês):

Durante esses 70 segundos (a partir dos 3 primeiros minutos de episódio), o diretor percorre dois cinegrafistas pela apertada cabine de controle da nave, alternando entre nada menos do que 8 fotografias diferentes.

Confira quais foram:

Isso tudo usando um equipamento enorme para estabilização dos movimentos (os efeitos de turbulência da nave foram adicionados na pós-produção) e ainda com alternância muitíssimo precisa de foco em tempo real.

Confira um vídeo de making of da BBC sobre esta cena em particular (em inglês):

Quem estuda Cinema já deve estar ambientado com esse tipo de filmagem, chamada de “plano-sequência” (quando há alternância de vários ângulos na mesma cena sem que haja cortes de câmera).

Porém, em Doctor Who moderno, foram poucos diretores que ousaram optar por esse tipo de filmagem. Nos primórdios da era clássica, os planos-sequência eram quase uma obrigação, devido à baixa tecnologia de captação de vídeos e baixo orçamento disponível para uso de rolos de filme.

Sintonia entre atores foi de tirar o fôlego

Jodie Whittaker está mais enérgica do que nunca no papel de Doutora neste plano-sequência.

A sintonia dela com o ator Shaun Dooley (que interpreta o piloto albariano Epzo) nos faz realmente crer que a tripulação está à deriva no espaço, em um ambiente muito mais vasto do que o apertado cenário decorado para ser a cabine da Cerebos.

Isso fica ainda mais evidente quando ambos olham para um mesmo ponto imaginário e distante onde o planeta desaparecido está. Nós temos certeza de que as personagens estão olhando para essa profundidade imaginária, que amplia nosso senso de espaço para além do pequeno cenário.

A recém-regenerada Doutora também nos mostra como ela realmente tem a personalidade teimosa e inteligente dos Doutores que já conhecíamos. Ela debate com o piloto com bastante propriedade, mostrando que conhece de navegação espacial mais do que ele.

Quando eles decidem juntos abandonar a parte dos fundos da espaçonave para conseguirem ter combustível suficiente para alcançar o planeta Desolação, não resta dúvidas de que a Doutora continua com seu pensamento ágil, seguido de um reflexo corporal igualmente dotado.

 

Efeitos visuais ainda mais precisos

Em “The Woman Who Fell To Earth“, nós tivemos poucas (mas boas) opções de efeitos visuais para contemplar. Já no segundo episódio, a coisa muda para melhor.

O primeiro grande diferencial é o efeito “Tracking” em computação gráfica que mostra o exterior da nave da personagem Angstrom (Susan Lynch).

É a primeira vez em Doctor Who que temos uma nave inteira girando tridimensionalmente em computação gráfica simultaneamente a uma rotação de câmera em drone.

Apesar de não ser uma novidade no cinema norte-americano recente, este tipo de tracking é uma inovação nas produções britânicas. Pode parecer simples, mas tecnicamente, não é não…

Da mesma forma, para nós que já estávamos acostumados a animações de baixo orçamento (vide Mickey Smith de plástico), a cena da nave caindo e levantando poeira em direção às personagens também já é um avanço tecnológico.

Temos ainda os vilões de retalhos, que fazem parte do grupo Os Remanescentes (The Remnants), armas semiconscientes criadas para dizimar seres vivos no planeta Desolação. O movimento leve dos panos lembra um ninho de cobras e também o dos Dementadores, de Harry Potter. Se você analisar bem pausadamente as cenas, poderá ver que cada movimento deles tem uma riqueza de detalhes, como, por exemplo, no momento em que eles passam por baixo das pernas de Epzo, durante a soneca dele.

Vale lembrar que a empresa que está fazendo essas magias em Doctor Who contratada pela BBC é a britânica Casa de Efeitos Double Negative (DNEG Effects House). Ela tem sido responsável por outros sucessos, tais como Blade Runner: 2049, Altered Carbon, Criaturas Fantásticas e os Crimes de Grindelwald, Homem-Formiga e a Vespa, Bohemian Rapsody, dentre outros.

 

Os pseudo-“vilões” de The Ghost Monument

É difícil estipular quem é o verdadeiro vilão neste episódio, porque os “caras maus” não necessariamente são os obstáculos da aventura de The Ghost Monument.

Epzo e Angstrom

Primeiramente, somos apresentados à dupla Epzo e Angstrom, finalistas de uma competição que exige muito sangue frio. Eles chamam a Doutora e os companions de “bônus”, e essa frieza nos faz pensar até que ponto eles seriam confiáveis.

Porém, no desenrolar da trama, vemos que eles podem ser bem bonzinhos e quem sabe até confiáveis. Para o episódio, é possível sim chamá-los de “amigos”.

Ilin, o mestre da Corrida

Depois somos apresentados ao promotor-chefe da Corrida das Doze Galáxias, um sujeito misterioso e bastante frio, chamado Ilin (Art Malik), que só aparece em forma de holograma. Aparentemente bastante rico e poderoso, ele acaba se mostrando um sujeito cruel e covarde – características que nosso Doctor abomina.

Porém, não sei se podemos chamá-lo de vilão ou apenas de “um empresário sem limites de bom senso”. Acontece que ele já foi o vencedor de outra edição da Corrida, e agora orquestra uma nova. Apesar da frieza com que ele trata os competidores e os “bônus”, poderíamos dizer que ele seja apenas fruto de “uma sociedade futurística que consume entretenimento mortal”. Isso talvez não seja uma vilania dependendo dos padrões morais dessa desconhecida sociedade.

Ao final da trama, quando Ilin é ameaçado pelos vencedores da Corrida, mesmo à distância ele se acovarda e aceita a vitória dupla, e ainda consegue abandonar a Doutora e os companions em um último ato repentino de crueldade.

Os SniperBots

Para dificultar a vida dos competidores, Ilin distribuiu robôs sentinelas pelo planeta, os quais foram identificados como SniperBots pela Doutora.

Eles não eram seres vivos, e apenas eram programados para atirar em seres vivos em forma humanoide. Apesar de serem robôs mortíferos, eles funcionaram apenas mais como um elemento dificultador do jogo da Corrida do que necessariamente vilões. Um único pulso eletromagnético foi o suficiente para desativar uma boa parte deles de uma só vez.

Os Remanescentes

Temos então os Remanescentes (Remnants), os quais, como já foi dito, são resquícios de armas criadas pelos finados cientistas do planeta Desolação. São resquícios da chacina que eles foram obrigados a criar para impedir um mal ainda pior.

Essas criaturas em forma de retalhos e panos velhos são seres dotados de consciência, criados por meio de bioengenharia avançada. Eles dormem durante o dia e entram em funcionamento à noite, atraídos pelo cheiro de medo e sangue das vítimas.

São capazes de ler os pensamentos mais profundos das vítimas, desde que sejam baseados no medo. Foi assim que eles conseguiram descobrir algum segredo guardado na mente da Doutora, escondido até dela mesma – a tal “criança atemporal” (timeless child).

Apesar de serem mais difíceis de derrotar e mais assustadores do que os SniperBots, esses inimigos também são apenas restos (daí o nome “remanescentes”) de uma guerra que aconteceu muito antes da Corrida chegar ao planeta Desolação.

O ataque dessas criaturas é similar ao ataque de feras selvagens, por exemplo, quando pessoas desavisadas entram desprotegidas no bosque escuro à noite. Esses “vilões”, assim como os SniperBots, agem por impulso pré-programado e não por maldade.

Micróbios Carnívoros

Essas pobres criaturinhas nem sequer foram ameaça para ninguém no episódio, mas apenas estavam lá infestadas nas águas do planeta ajudando a acabar com toda a vida que sequer tocasse o líquido.

Muito parecidos com as piranhas do ar, Vashta Nerada, estes micróbios carnívoros não foram (até onde o episódio nos contou) peças colocadas no planeta por Ilin nem armas biológicas criadas pelos cientistas para obliterar a vida em Desolação.

A função delas na história foi apenas mostrar que não era possível sobreviver no planeta. Não havia comida para ser pescada ali e nem água potável para hidratar possíveis habitantes – e convenhamos que um calor de 3 sóis de uma só vez é bastante desidratador. Sem contar que a atmosfera era tóxica…

Foi por isso que a Doutora estava desesperançada no final do episódio, alegando que não poderiam viver mais nem um dia lá (nem uma rotação), já que estavam sem água, em um calor infernal e ainda com criaturas mortais que caçam à noite.

Os Stenza

Eles não aparecem no episódio e não apresentaram nenhuma ameaça direta às personagens. Os Stenza (a raça à qual pertence o vilão do episódio anterior, Tim Shaw ou T’zim-Sha) figuram apenas como parte de uma história sobre o planeta.

Eles de fato agiram com maldade contra os cientistas dali, obrigando-os a criarem armas terríveis para que pudessem usá-las em suas conquistas pela região dos Nove Sistemas (não confundir com as Doze Galáxias). Também foi por culpa dos Stenza que toda a forma de vida foi exterminada e que, eras mais tarde, os Remanescentes iriam açoitar a paz da Doutora e seus companions.

Entretanto, ainda assim não se pode dizer que os Stenza foram os vilões do episódio, já que não agiram diretamente contra o objetivo dos protagonistas, mas sim indiretamente apenas como consequência de uma antiga guerra.

É por isso que, apesar de muitos obstáculos, maldades e ameaças mortais, é confuso dizer que há um vilão central em The Ghost Monument. É mais preciso afirmar que tratava-se da Doutora enfrentando sistemas maus: tanto o da Corrida quanto o da antiga guerra que “desolou Desolação”.

O que podemos afirmar é que a citação inesperada sobre os Stenza pode tê-los colocado como os possíveis vilões da 11ª temporada. Tudo indica que veremos mais deles nos próximos episódios, e quem sabe até a vingança (ou redenção) do Tim Shaw.

 

Trama tem pontos consistentes (e outros nem tanto)

A trama proposta pelo episódio é forte, mas deixa algumas pontas soltas. Não sabemos até que nível elas foram intencionais ou não, pelas mãos do roteirista-chefe e showrunnerChris Chibnall.

O principal ponto positivo é a função da Corrida das Doze Galáxias para levar a história adiante. Vou explicar:

No começo, tínhamos a Doutora tentando se teletransportar para a TARDIS e, ao final, está ela e seus novos companions dentro da velha caixa azul (azul esverdeado agora). Então, qual a necessidade de fazer esse espaçamento entre o teletransporte e a chegada ao interior da cabine policial?

A resposta está nas recompensas da Doutora e dos companions ao final da jornada do episódio e a evolução emocional que eles desenvolveram, além de dar um tempo de sobra para conhecermos o passado de cada nova personagem.

Os novos amigos são a recompensa

A recompensa não é apenas chegar até a TARDIS – até porque isso “meio que” aconteceu por acaso, na sorte. A recompensa verdadeira a ser levada adiante é a amizade criada entre a Doutora e os vitoriosos Epzo e Angstrom.

Essa dupla (brilhantemente vacinada contra a taxação de “casal”, graças a um discreto sussurro de duas palavrinhas que indicam a homossexualidade de Angstrom), claramente deixa algo inacabado no final da história. Eles não tiveram tempo de se despedir da Doutora e dos outros amigos e ainda deixaram no ar um quê de preocupação sobre como ficaria a situação deles abandonados no planeta.

O senso de gratidão que visivelmente restou na dupla pode futuramente desencadear uma reação de apoio quando a Doutora mais precisar. De início, a primeira aparição deles surgiu como um confuso “Deus ex Machina” (termo usado no Cinema para indicar qualquer salvamento milagroso de última hora), ao livrar da morte todos os protagonistas que agonizavam soltos no espaço sideral – ah, eu amo essa palavra, “sideral”…

Voltando… Além de tudo isso, a Doutora ainda “consertou” Epzo e Angstrom. Como? Ela conseguiu uni-los como parceiros ao invés de adversários. Ambos defenderam-se como vitoriosos até o último segundo diante do poderoso Ilin.

A Doutora conseguiu vencer a barreira da falta de confiança de Epzo nos outros e também sensibilizar Angstrom a se abrir mais para as amizades. Epzo confia em Angstrom para dar o último passo em direção ao prêmio, e Angstrom abre o coração para os novos amigos e dá um voto de confiança para Epzo.

É justamente assim que o Doutor que conhecemos age e conserta as relações e situações, e a Doutora agora permanece com essa característica que amamos.

Isso é sim uma recompensa, da mesma forma como o 10º Doutor, ciente da regeneração que vivenciaria, saiu para “coletar sua recompensa” revisitando (e salvando uma última vez) os amigos que fez pelo caminho. Semelhantemente a isso, o 11º Doutor também coletou essas recompensas de amizades quando precisou de toda ajuda possível para salvar Amy Pond na Batalha de Demon’s Run.

Tempo para aprofundar o passado das personagens

A longa travessia do lago causou o momento ideal para fazer todos pararem e conversarem. Todo aquele diálogo que não cabe durante as correrias, deduções ou enfrentamento dos vilões, Chibnall conseguiu colocar aqui com inteligência e ritmo.

  • Soubemos da família da Yasmin e de como é difícil a relação dela com a irmã e o pai;
  • soubemos do propósito da Angstrom e sobre o sofrimento da família dela (e quem aqui nunca se identificou com sair de um lugar pequeno sem muita perspectiva e tentar a felicidade em outro local?);
  • soubemos do trauma de infância de Epzo e todo isolamento social que isso lhe causou;
  • vimos ainda um pouco mais da tentativa (e frustração) de reaproximação entre Graham e Ryan após a morte de Grace;
  • só não vimos nada específico sobre o passado da Doutora aqui (isso foi guardado mais para frente, quando ela fosse enfrentar os Remanescentes).

Temos aqui também o momento de descanso, de sono e todas aquelas necessidades básicas que seres humanos têm após muito tempo de esforço físico e mental. Porém, o que não apareceu ao longo do episódio inteiro foi justamente a necessidade das personagens de beberem água.

Penso que, em algum momento, deveria ter tido uma cena sequer demonstrando o perigo da desidratação após tanto esforço, caminhada, corridas, suor, conversa atrás de conversa, etc. Este é um pequeno ponto de inconsistência, na minha opinião.

TARDIS “quer resolver” a Ameaça Stenza

Já sabemos que a TARDIS não leva a Doutora para um lugar sem propósito e, mesmo sendo em um momento de crise e explosão, a nossa Sexy foi bem precisa ao jogar a nova Time Lady onde e quando precisava – duas vezes.

Não há “mera coincidência” em ter as duas situações (dos dois primeiros episódios) envolvendo os Stenza. Em ambos os casos, a TARDIS foi diretamente responsável.

No primeiro momento, é a TARDIS quem decide jogar a Doutora do céu para que caísse exatamente sobre o trem em que ocorria um ataque Stenza, por meio da tecnologia proibida usada por Tim Shaw.

Resolvida a ameaça, a Doutora rastreou a Energia Artron no coração da TARDIS para teletransportar-se até ela. Dentre todos os locais do universo em que a TARDIS poderia ter tentado fazer um pouso de emergência para se reconstruir, foi justamente o planeta Desolação que ela escolheu – justo onde os Stenza dizimaram toda forma de vida eras atrás e para onde agora a Doutora estava indo.

Foi dito que a TARDIS aparecia no mesmo monte a cada mil rotações (mil dias) desde os tempos antigos do planeta, quando a população original ainda vivia pacificamente, criando assim a lenda do “monumento fantasma”. Por isso, a TARDIS presenciou em períodos de mil em mil dias toda a dominação Stenza e, consequentemente, a aniquilação da vida no planeta, que passou a ser conhecido como Desolação.

E ali a TARDIS continuou aparecendo e desaparecendo, em uma tentativa de estabilizar a sincronização com o universo, por muito tempo, muito após a guerra Stenza e até a implantação da Corrida das Doze Galáxias. E a nossa cabine só conseguiu ser liberta desse loop graças ao aparecimento (e intervenção) da Doutora.

Portanto, temos aqui um belo motivo para que Chibnall adicionasse este episódio à narrativa do arco maior da temporada. E é isso que faz com que The Ghost Monument não seja apenas um episódio de preenchimento (filler), mas sim uma peça importante para a resolução da grande trama e desenvolvimento das personagens.

Pontas soltas e coisas não explicadas

Enquanto há motivos grandiosos que dão consistência ao episódio, há também uma série de pequenas coisinhas que não fizeram muito sentido. Vou elencar algumas, mas você pode ficar à vontade para comentar estas ou outras que você mesmo encontrou enquanto assistia.

a) O discurso anti-armas

“O Doutor nunca usa armas”, isso sabemos (embora já tenha havido exceções). Entendemos o porquê de ela repreender Ryan quando ele tentou usar uma blaster dos SniperBots por conta própria, e até rimos com os gritinhos agudos dele quando acabou a munição ao desobedecer a Doutora.

Porém, se Ryan não podia usar a arma dos SniperBots contra eles, então por que a Doutora podia usar a energia dos SniperBots contra eles? Que diferença faz contra-atacar com disparos individuais ou lançar um forte pulso eletromagnético contra o coletivo? Em ambos os casos, os robôs voltavam à funcionalidade, então não havia morte, nem vitória.

Na sequência, a Doutora não repreende Angstrom por estar armada com uma pistola andando com ela em punho. Por que não? Na minha opinião, isso pode ter sido um exemplo de lapso inconsistente de roteiro.

b) O paradigma do charuto

Polêmico entre os fãs, o recurso do charuto parece ter sido bem mal inserido (para não falar que foi forçado). Enquanto alguns adoraram a perspicácia da Doutora em usar o charuto como uma forma de incendiar o gás inflamável emitido pelos Remanescentes e assim escapar daquela ameaça mortal, outros não aceitaram com tranquilidade o conceito por trás do charuto que se acende sozinho ao som de um estalar de dedos.

Cercado pelo discurso de que fumar faz mal à saúde, Epzo se mantem firme em valorizar o charuto e guardá-lo com muita expectativa para comemorar o tão buscado prêmio da Corrida. Ele explica como leva-se uma vida inteira para se confeccionar aquele tipo raro de fumo e como é intenso e único o prazer que ele proporciona. Quando estão todos cercados pelos Remanescentes, a Doutora ainda fala que “algumas pessoas” gostam muito de dar uma tragada após as refeições.

Nessas cenas, há muito mais discurso de propaganda positiva ao fumo do que dos malefícios que ele causa. Explica-se como ele é feito, qual o prazer que ele oferece e até em que situação “algumas pessoas” gostam de fumá-lo, mas quando é para falar sobre as consequências desse ato… só frases genéricas sem profundidade.

Questiono: será que a inserção desse elemento e dessa “propaganda” foi apenas uma utilização infeliz do roteirista ou será que temos um dedinho financeiro da indústria tabagista por detrás da produção midiática televisiva para jovens?

Há alguns anos, o Reino Unido vem tendo um aumento na aderência do público jovem ao consumo de cigarros eletrônicos (e-ciggys), especialmente incentivado por campanhas publicitárias, mas sem comprovação de que seja menos maléfico do que o cigarro tradicional.

“De acordo com o NHS (National Health Service), o Serviço Nacional de Saúde do Reino Unido, embora tenha diminuído o número geral de usuários de cigarros tradicionais e eletrônicos na Inglaterra (em 2016, havia cerca de 2.4 milhões de usuários de e-ciggys, representando cerca de 5% dos adultos), a prevalência na faixa de jovens de 16 a 24 anos aumentou de 2%, em 2015, para 6%, em 2016.” (Fonte: BR Press)

Deixando a teoria da conspiração tabagista de lado e voltando ao roteiro, Epzo nos explica que o tal charuto pode ser acionado com o simples estalar de dedos.

Pergunta: por que raios um produtor de charutos raros iria adicionar esta peculiaridade incendiária nesse produto? E se alguém estalasse os dedos por acaso, isso não causaria um acidente e o desperdício de uma vida inteira de produção? E por que cargas d’água Epzo – que não confia em ninguém – iria contar tudo isso para sua rival? Não imaginou que ela, para sacaneá-lo, poderia estalar os dedos a qualquer momento só para acabar com a alegria tão longamente alimentada dele?

Então finalmente a Doutora sacrifica o raríssimo charuto de Epzo, a única coisa que ele realmente valoriza ao longo do episódio (além do prêmio)… e ele não faz nada? Ele não reage? Nem sequer comenta um triste “Poxa, Doutora…” Epzo deveria, por fidelidade à história de vida que ele contou, no mínimo questionar se aquele ato não teria sido um tipo de traição pessoal que a Doutora lhe causou.

Se isso tudo não for uma inconsistência de roteiro, por favor me explique nos comentários.

c) Para que está servindo à história as cenas de enfrentamento da Dispraxia?

Por uma questão de representatividade, inclusão e pluralidade, todos nós ficamos felizes quando foi anunciado que o companion Ryan teria uma deficiência, chamada dispraxia, que o impede de utilizar com precisão a coordenação motora, especialmente quando envolve tirar os pés do chão. Escadas e bicicletas, por exemplo, são um terror para este tipo de deficiência.

Em “The Woman Who Fell To Earth”, a dispraxia de Ryan serviu como símbolo de memória e superação em relação ao luto de Grace e à continuidade de tudo que ela ensinava e representava para o neto.

No entanto, em “The Ghost Monument”, esses momentos não tiveram justificativa, apenas serviram como elemento de continuidade para que a personagem Ryan continuasse fiel ao próprio conceito original. Teremos que aguardar novos episódios para ver onde isso vai dar.

Continuidade acertou no gelo Stenza

Por falar em continuidade, o episódio acertou em algumas cenas, tais como o momento rápido em que aparecem cadeiras congeladas no laboratório dos cientistas assassinados pelos Stenza.

Foi dito em “The Woman Who Fell To Earth” que o planeta desta raça malvada é extremamente gélido, ao ponto de um simples toque de um Stenza conseguir matar um ser humano instantaneamente.

Mesmo após tanto tempo desde a guerra em Desolação, as banquetas continuavam congeladas (e estamos falando de um planeta aquecido por 3 sóis ao mesmo tempo). Isso nos dá uma ideia do quão congelante pode ser o poder dos Stenza.

A escrita dos cientistas

Outra continuidade positiva é a inscrição dos cientistas no chão do laboratório deixando uma mensagem para quem quer que pudesse um dia encontrar o local após o genocídio. Embora nunca tivéssemos visto aquele idioma antes, Doctor Who já nos mostrou que é possível uma quantidade imensa de informação ser escrita por meio de desenhos simples.

Sim, estamos falando da famosa e lendária escrita Gallifreyano Antigo, da terra-natal da Doutora. Como já foi explicado em outras temporadas, um simples círculo daqueles pode conter a história inteira de uma civilização (dentre outros poderes mitológicos). Da mesma forma, essa linguagem dos cientistas também conseguiu imprimir muita informação em poucas linhas circulares.

Isso foi um ponto positivo, adicionar ao universo uma nova linguagem semelhante, porque mostra uma certa confluência na mitologia da série. Trata-se de uma civilização proveniente de um ponto no espaço-tempo muito distante da realidade da Terra e dos seres humanos e que detém um idioma completamente diferente.

Mitologia expandida

Surpresa para nós quando a Doutora conseguiu ler e traduzir perfeitamente aquela escrita antiga. Por outro lado, percebemos o choque cultural e temporal entre a guerra de Desolação e a implantação da Corrida no planeta, já que a Doutora não conhecia as diferentes moedas contemporâneas daquele sistema, mas conhecia aquela linguagem antiga usada ali muito tempo atrás.

Com a adição dos novos dinheiros, todo poderio dos Stenza, a história das diferentes raças de Angstrom e Epzo, além dos misteriosos, covardes e persuadíveis empresários por detrás da Corrida das Doze Galáxias – e tudo isso sendo desconhecido para nós e para a Doutora -, temos agora um universo expandido, ou melhor, uma nova parte gigantesca do universo a ser descoberto, tanto em termos de passado e presente (a história de tudo), quanto de futuro (como será após a intervenção da nossa Time Lady).

Isso dá “pano para manga” (expressão de tiozão aqui) para muito material em HQs, audiodramas, livros, etc. Obrigado, Chris Chibnall.

Padrão na narrativa dos dois primeiros episódios

“Humanos, sempre vendo padrões onde não existem”, já dizia o 8º Doutor, mas convenhamos: temos algumas coincidências entre os roteiros de “The Woman Who Fell To Earth” e “The Ghost Monument”.

Ambas as histórias se passam, majoritariamente, durante o período de 1 dia, na mesma ordem: (1) dia/tarde, (2) pôr do Sol(is), (3) noite/madrugada, (4) dia novamente e (5) espaço. Mais do que isso, temos exatamente o mesmo tipo de tensão em cada momento desse:

  1. Começa de dia, com um problema relativamente leve, em que acontece o primeiro incidente incitante.
  2. Depois, o pôr do sol(is) e a noite, quando o problema “garra feio” (outra expressão de tiozão) e todas as personagens são postas à prova.
  3. Em terceiro momento, o dia novamente, quando o corre-corre já acabou e todos estão se recuperando mais calmos, mas que ainda falta solucionar o problema (no primeiro episódio tratava-se do luto de Grace e, no segundo, o escape do planeta desolado).
  4. Por fim, temos o encerramento dos episódios com um escape para o universo: um por meio do teletransporte improvisado da Doutora, e outro por meio da Tardis (e embora não a tenhamos visto de fato no vórtex, apenas desmaterializando-se, sabemos pelo roteiro que as personagens estão indo para fora daquele planeta).

As aventuras/encrencas estavam nas Competições

Nos dois primeiros episódios, o que leva a trama adiante também segue um padrão: a competição.

No episódio 1, temos a caçada de Tim Shaw no planeta Terra, para obtenção de um prêmio enorme, a soberania sobre a raça Stenza. Já no episódio 2, temos a épica Corrida das Doze Galáxias, cujo prêmio também era massivo, uma recompensa em dinheiro capaz de solucionar os problemas de vida de qualquer um suavemente (inclusive resgatar uma família da ameaça Stenza).

São duas competições aparentemente independentes, mas que são o fator que incita a Doutora e os companions a toparem a aventura da semana. Numa, para salvar um ser humano da crueldade de um alienígena e, conseguintemente, salvar a espécie humana de uma raça maligna. Noutra, para recuperar a TARDIS e salvar o competidor que perdesse de morrer abandonado no planeta.

E isso nos leva diretamente o próximo tópico da análise deste gigantesco review.

A nova personalidade da Doutora e os valores que ela carrega

Isso porque é justamente após se engajar no objetivo principal do episódio (recuperar a TARDIS), que a Doutora aceita, ao longo da jornada, uma segunda meta (uma sub-quest): descobrir que raios aconteceu (tiozão de novo) com o planeta Desolação e toda vida que ali havia.

Enquanto o objetivo principal era uma obrigação para que eles pudessem escapar dali, essa segunda meta foi opcional, aceita espontaneamente pela Doutora, ou seja, por causa de uma iniciativa dela. Epzo questionou negativamente a necessidade de fazer isso, mas a Doutora argumentou que se tratava de uma preocupação moral: era o “certo” fazer isso.

O preço dessa escolha foi alto: o risco de perder várias pessoas ali para os Remanescentes.

Já o preço de Epzo, que concordou relutantemente, foi perder o tão precioso charuto.

Angstrom também estava relutante em ficar naquele lugar e disse que gostaria de voltar para a trilha da Corrida. Após aceitar a escolha da Doutora, Angstrom também pagou um preço no final: teria que aceitar que foi salva pelo charuto de Epzo e, por isso, deveria vencer com ele, ao invés de vencer sozinha.

O que, a propósito, foi uma solução muito similar à série de filmes Jogos Vorazes (The Hunger Games)…

Tudo isso coloca o caráter da Doutora como o pivô das situações. Felizmente, a regeneração nova manteve os valores deixados de herança pelo 12º Doutor: a Bondade e a Coragem.

Vimos no primeiro episódio que a Doutora continua dando a oportunidade aos vilões de se arrependerem antes do ato final. Esse valor chama-se Misericórdia – também herdada do 12º Doutor após enfrentar Davros criança.

Da mesma forma, a nova Doutora também tem traços de personalidade presentes em quase todas as encarnações anteriores, tais como ser bastante ansiosa, encorajadora, didática e empática.

Se um ser humano comum tivesse a mesma ansiedade da Doutora, certamente seria diagnosticado com Transtorno de Ansiedade Generalizada (como eu), mas a Time Lady tem três troncos cerebrais capazes de suportar o que nós, meros humanos, não conseguimos sozinhos. Para ela, isso é positivo, devido à constante corrida contra o tempo para salvar as pessoas ao redor – é por isso que há tanta corrida envolvida.

Por ser extremamente inteligente, a Doutora precisa ser paciente com quase todos que ela encontra, já que sabem muio menos que ela sobre quase tudo. Às vezes ela se irrita, como foi com Epzo a bordo da nave Cerebos, mas às vezes ela consegue ser extremamente didática, ou seja, ela consegue parar e ensinar os companions sobre algo que eles não têm a menor noção.

Por mais que as situações estejam difíceis e tenebrosas, a Doutora encoraja os demais a continuarem, a não desistirem, a manterem o foco no objetivo. Resumindo, ela dá energia de esperança aos outros.

Como o próprio 12º Doutor já disse: é difícil resistir à esperança.

O fraquejamento da Doutora

No entanto, após ser abandonada com os companions em Desolação por Ilin, a Doutora perde a própria esperança. Ela se vê sem recursos e sem energia para salvar aqueles a quem ela prometeu salvar.

É daí que ela recebe de volta deles a mesma motivação que ela os ensinou a ter. Ryan, Yasmin e Graham estavam dispostos a ficarem juntos até morrer naquele lugar esperando pelo Monumento Fantasma reaparecer. Isso é também uma forma de recompensa narrativa para a protagonista, como forma de mostrar que foi correto o que ela fez antes, dar-lhes esperança.

E aí que vem a referência mais linda do episódio:

O som da TARDIS devolve esperança para todos (até para o Doutor)

Como não se lembrar de um Doutor sem esperanças prestes a causar dois genocídios de uma só vez, durante o Especial de Aniversário de 50 anos da série, “The Day of the Doctor“, em 23 de novembro de 2013?

Tínhamos o Doutor da Guerra (John Hurt) diante do Momento, cuja interface era interpretada por Billie Piper (na forma da Bad Wolf de Rose Tyler), totalmente sem esperanças… longe da TARDIS.

Neste momento, a interface lhe diz:

“Você sabe o som que a TARDIS faz? Aquele chiado, rangido… Aquele som traz esperança aonde quer que vá. (…) A qualquer um que ouça, Doutor. Qualquer um, não importa o quão perdido esteja. Até você…

Nessa hora, duas TARDISes aparecem e tudo começa a se resolver.

O mesmo acontece agora, em The Ghost Monument. Exatamente no instante em que os companions tentam dar esperança para a Doutora, o som da TARDIS completa a tarefa.

É emocionante e arrepiante a cena em que a Doutora clama pela TARDIS, em seu último sopro de esperança. Não importava se agora ela fosse Time Lord ou Time Lady, o Doutor/Doutora “precisava” da sua TARDIS mais do que nunca.

Era mais do que um resgate, era um reencontro de essências, como duas “almas gêmeas” que precisam sempre uma da outra.

A personalidade da TARDIS

Acho incrível quando um escritor consegue transformar um objeto inanimado em personagem ativo. Não apenas porque a TARDIS é parte “viva” ou “consciente”, mas porque, com poucas falas, nós conseguimos entender até o que ela estava sentindo.

Quando a Doutora diz…

“Está tudo bem! Sou eu!”

…percebemos como a TARDIS está aflita tentando sincronizar-se com o planeta que foi tirado de seu lugar original. Essa pequena fala nos faz entender toda a angústia que a TARDIS vinha sentindo ao longo de todo esse tempo em que ela implodiu até tornar-se lenda fantasma em um planeta ancião.

Da mesma forma como os companions e o som da TARDIS deram esperança à Doutora, agora é a vez dela de acalmar a amiga “maior por dentro”. E assim, seguindo o sinal emitido pela nova sonic, a TARDIS finalmente consegue estabilizar.

De look novo, sentimos a TARDIS sendo nada menos que carinhosa com a Doutora, abrindo a porta para ela sem chave nem estalar de dedos (possivelmente reconhecendo-a por meio de uma fortíssima ligação telepática) e curiosamente preparando-lhe um biscoitinho.

Para quem tiver dúvida entre biscoito ou bolacha, aqui em Santa Catarina nós chamamos de bolacha, mas no Reino Unido, o termo é Biscuit (e  nos Estado Unidos é cookie).

Por falar nisso, o sabor do biscoito é “Custard Cream” (ou “creme de nata”, para alguns), e Custard não só é uma referência direta ao 11º Doutor (Matt Smith), que era fã de dedinhos de peixe com creme (fish fingers and custard), como também é o sabor favorito da atriz Jodie Whittaker.

Ela teria dado essa dica para a produção da BBC um tempo atrás, sem saber que eles usariam essa informação para surpreendê-la durante a gravação do episódio. Jodie sabia que haveria o biscoitinho saindo da TARDIS, mas a reação de alegria que aparece no episódio é verdadeiramente da atriz.

Só para não passar batido, achamos linda a referência “Oh, você redecorou?” seguida de um surpreendente e inédito “Eu realmente gostei!”.

Porém, o que realmente ficou poético entre essas duas falas foi a forma silenciosa e cautelosa da Doutora ao pisar o novo interior da TARDIS pela primeira vez.

Era como reencontrar uma velha amizade após muito tempo e não ter certeza se ainda existe a mesma intimidade de antes. Foi literalmente como pisar no desconhecido.

Ambas as personagens (Doutora e TARDIS) estavam de novo entrando na vida uma da outra, com respeito, calma e carinho.

 

Por que a Doutora não quis saber mais sobre a Criança Atemporal (Timeless Child)?

Agora que já falamos da personalidade da Doutora e da nova Mitologia da série, podemos falar sobre o novo mistério da temporada: a Criança Atemporal ou Timeless Child.

Já circulam muitas teorias sobre quem ela possa ser, e velhos nomes voltam à mesa de discussão: a neta Susan, o exilado Ômega, a sumida Rani, a amiga Romana, a filha Jenny, a “morta” Missy e mais uma série de outros Time Lords & Ladies que há tempos são requisitados pelos fãs para retornarem; além de hipóteses novas (e não tão novas), como o Hibrido, os imortais Ashildr e Jack Harkness, Rose Tyler, Doutor Meta-crise, Donna, Clara Oswald e até… o teórico filho de Clara com Danny Pink.

Porém, o que não estão falando por aí é: por que a Doutora não quis saber mais informações sobre a tal Criança Atemporal?

A resposta pode ter tudo a ver com a personalidade da nova Doutora em fazer de tudo para salvar as pessoas ao redor. Muita coisa estava em jogo naquele momento obviamente. Os diálogos mentais dos Remanescentes eram uma forma pré-programada de atiçarem o medo das vítimas, em uma forma de ganhar tempo para preparar o ataque.

No entanto, eles utilizavam uma invasão mental nas vítimas para extrair informações. Eles conseguiam obter dados de medos de que a própria vítima já tinha consciência (como o medo da “novidade” da Doutora), mas também dados ainda mais profundos e ocultos.

Foi assim que eles chegaram a um dado perigoso: a existência da desconhecida, exilada e esquecida Criança Atemporal. A Doutora demonstrou não reconhecer o assunto, mas sabia: algo estava muito oculto na mente dela e aquele inimigo estava alcançando.

Com esse poder, ele poderia ter informações ainda mais perigosas, segredos que jamais devem ser contados, conhecimento que jamais deva ser falado. Por exemplo… Doutor quem?

Diante dessa ameaça, a Doutora expulsa os Remanescentes da mente dela, em uma tentativa de proteger essas informações e, assim, impedir que elas sejam usadas por sabe-se lá quem – mesmo que, para isso, ela sacrificasse a própria curiosidade em descobrir algo sobre si.

É fato que o Doutor já tentou diversas vezes enterrar lembranças na mente, escondendo-as dele próprio. Foi o caso do Doutor da Guerra, o próprio nome (como dito no episódio “The Shakespeare Code“), além de diversas outras passagens na era clássica.

Portanto, se a Criança Atemporal estava oculta, havia um motivo para isto – e a Doutora entendeu esse risco em uma fração de segundo, ao expulsar os Remanescentes da mente dela.

 

Qual a sua opinião?

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Amanhã é domingo, pede cachimbo e episódio novo, “Rosa”. E se você é ansioso(a) como a Doutora, clique para ler “Rosa: Imagens promocionais” e “Rosa: 20 dicas sobre o episódio“.

O próximo review fica a cargo do Vinícius, e eu volto para o review do episódio 4, “Arachnids in the UK“.

Allons-y! :v

 

Texto e ilustração: Djonatha Geremias (Universo Who)

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